Por Airton Gontow

Léo e Cláudio são amigos desde a infância.

Desde piás, como se diz em Porto Alegre.

Da mesma idade, ambos bons de bola e apaixonados por música seriam até que parecidos se não houvesse uma diferença maior do que o canyon do Itaimbezinho.

O primeiro é gremista. O segundo colorado. Um é azul. O outro, vermelho.

Desde guris os dois amigos inseparáveis gostavam de provocar um ao outro quando o assunto era futebol.

Foi de Cláudio a idéia de receber Léo na frente do colégio, com outros colegas, no dia seguinte à conquista do octacampeonato gaúcho pelo Inter, pintá-lo de azul, deitá-lo em um caixão e desfilar com o “morto gremista” pelos longos corredores do colégio.

Foi Cláudio que infernizou a vida do amigo nas duas vezes em que o Grêmio foi para a segundona do Campeonato Brasileiro: “ão, ão, ão, segunda divisão”, tripudiava até em momentos que nada tinham a ver com o futebol, como no recente encontro dos ex-colegas da turma formada no Ginásio em 78.

Léo teve menos oportunidades de irritar o amigo. Mas pôde fazê-lo por muito mais tempo.

De 83 a 2006, longo período que separa do título mundial gremista do colorado. “Qual é o próximo jogo do Nacional? Digo Nacional porque vocês nunca ganharam lá fora. Internacional é o que vocês não são….”, era seu maior jargão.

A verdade é que mesmo após as conquistas da Libertadores e do Mundial em 2006 pelo rival, Léo não se deu por vencido: “Tudo bem, tudo bem, mas vocês ainda estão atrás da gente. Somos bi da América”,  disse para o colega, antes mesmo do abraço, quando se encontraram por acaso no supermercado.

Adaptou o discurso este ano, com o bi da América pelo Colorado: “vocês venceram tanto nos últimos anos e ficaram tão grandes, mas tão grandes, que conseguiram chegar onde o Grêmio já está há muito tempo”, diz.

Léo é, desde sempre, desses gremistas que nunca vestem roupa vermelha, que não teriam um carro vermelho (“Nem a Ferrari”, garante) e que usam gorrinho azul no Natal. Tinha até a bandeirinha do PT azul – coisa que só acontece no Rio Grande – nos tempos de militante, como tantos e tantos tricolores.

Neste dia 24 de dezembro, Léo recebeu pela manhã a notícia de que Cláudio finalmente foi pai.

Mesmo em meio à correria dos preparativos para a ceia, encontrou tempo para sair às ruas em busca de um presente para o menino. No caminho, teve uma ideia e correu para uma loja de produtos esportivos

Observou atentamente as vitrines e apontou para o vendedor. “Quero esse uniforme para bebê. Completo: meiõeszinhos, calção e camiseta.”

Pouco antes do meio-dia estava no hospital. Entrou no quarto, cumprimentou a mãe, saudou o velho amigo e entregou o pacote.

Cláudio logo viu a etiqueta da loja e imaginou do que se tratava. Abriu o presente e, como pensava, era um uniforme completo de futebol. Olhou para Léo e exclamou: “Mas é do Inter!”

– Quero que meu filho tire muito sarro do teu, mas faço questão que teu filho seja colorado. Eu torço por isso. Acho tão bonito quando um filho torce pelo mesmo time do pai! – falou Léo.

Os dois se olharam em silêncio. Léo observou os olhos lacrimejantes e vermelhos do amigo. Sentiu o rosto molhado e percebeu que também estava com os olhos vermelhos. “Ambos com a cor do Inter!”, pensou. Pela primeira vez o rival levava vantagem absoluta no confronto diário dessa amizade de mais de 40 anos.

Não resistiu e encontrou, antes de partir, a palavra final, para ao menos empatar a peleja:

– Um dia conte ao teu filho que ele recebeu, na data em que nasceu, um lindo presente de um Papai Noel Azul…

 Airton Gontow é jornalista, cronista e diretor do site Coroa Metade.

 

 

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