Por Airton Gontow

 

A “Resposta Histórica”

Cento e dois conselheiros do Vasco da Gama assinaram na sexta-feira, 15 de fevereiro, uma carta de repúdio à homenagem feita ao Flamengo após a tragédia em que dez jovens atletas morreram no incêndio no Ninho do Urubu: foram colocadas duas bandeiras entrelaçadas na camisa do time: a do próprio clube e a do grande rival, além da mensagem: “Em frente juntos”.
Segundo os conselheiros, foi ferido o estatuto do clube. “Os membros do Conselho Deliberativo abaixo mencionados repudiam de forma veemente a colocação da bandeira de um outro clube na sagrada e centenária camisa vascaína. A irrestrita solidariedade às vítimas da tragédia, que atingiu tantos jovens talentos, não pode servir de pretexto a gestos demagógicos, que atentam contra nossas tradições e ferem frontalmente o estatuto do clube.”, diz a carta.

Camisa feita em solidariedade ao rival Flamengo

Camisa feita em solidariedade ao rival Flamengo

Dez jovens morreram os conselheiros estão preocupados com estatutos feridos!

O “Time da Virada” tem uma das mais lindas histórias do futebol brasileiro! Foi o primeiro clube a ter um presidente negro: Cândido José de Araújo, em 1904. Foi também o primeiro a conquistar um campeonato importante – o carioca de 1923 – com jogadores negros na equipe. (Embora muitas pessoas e até textos afirmem que o Vasco foi o primeiro time a aceitar jogadores negros, o verdadeiro pioneirismo é disputado por Bangu e Ponte Preta.)
O “Gigante da Colina” é time de craques inesquecíveis: Romário, Edmundo! Bellini! Vavá! Ademir de Menezes (o Ademir Queixada)! Barbosa! Almir Pernambuquinho! Danilo! Ipojucan! Fausto! Brito! Philippe Coutinho! Mauro Galvão! Juninho Pernambucano! Roberto Dinamite! E tantos, tantos outros.

É o time de esquadrões, como o “Expresso da Vitória”, que atropelava seus adversários e conquistou 11 títulos entre 1942 e 1952, cinco deles cariocas (dois de forma invicta) e Torneio dos Campeões Sul-Americanos de 1948, o primeiro título internacional de uma equipe brasileira.
Campeão da Libertadores (1998), quatro vezes campeão brasileiro (74, 89, 97 e 2000), campeão da Copa do Brasil (2011), campeão da Copa Mercosul (2000), campeão do Torneio Rio-São Paulo (58, 66 e 99) e 24 vezes campeão carioca. Como é grande o Vasco da Gama.

É também o clube da “Resposta Histórica”, famosa carta enviada em 7 de abril de 1924, pelo então presidente José Augusto Prestes ao presidente da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (Amea), Arnaldo Guinle.

No ano anterior, o Vasco havia conquistado seu primeiro título carioca, o há pouco citado campeonato de 23, com uma equipe repleta de jogadores egressos das camadas populares, muitos deles negros. O título vascaíno revoltou e assustou os clubes que comandavam a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT). No início de 24, houve uma cisão. América, Bangu, Botafogo, Flamengo e Fluminense fundaram a Amea. Segundo os clubes fundadores, a nova entidade surgira para garantir a manutenção de um futebol amador e a “moral no esporte”.

O Cruzmaltino foi convidado para disputar a competição, mas o preço era a exclusão de 12 jogadores do clube, entre eles sete que haviam conquistado o título no ano anterior. De acordo com uma Sindicância da nova Liga, esses atletas eram “indivíduos despossuídos de condições morais para a prática do futebol”. Na prática, era uma medida racista.

O Vasco recusou o convite. Saiu da liga, mas entrou para a história. “Estamos certos de que Vossa Excelência será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno de nossa parte sacrificar, ao desejo de filiar-se à Amea, alguns dos que lutaram para que tivéssemos, entre outras vitórias, a do Campeonato de Futebol da Cidade do Rio de Janeiro de 1923 (…) Nestes termos, sentimos ter de comunicar a Vossa Excelência que desistimos de fazer parte da AMEA”, diz um trecho da carta.

O admirado Vasco da Gama nas últimas décadas se tornou antipático para grande parte da opinião pública, graças a dirigentes como Heleno Nunes e Eurico Miranda. A imagem do clube ficou atrelada a manobras políticas e favorecimento de arbitragens.

Além disso, repleto de confusões internas e com muitas más administrações, acumulou fracassos em campo: é o time campeão de Série A que mais vezes disputou a B no século 21: três vezes (2009, 2014 e 2016)!

A homenagem feita pelo clube ao Flamengo lembrou para a maioria o quanto a história vascaína é bela e magnífica.

Não foi o que acharam os conselheiros. O que passa pelas cabeças e corações dessas 102 cabeças infelizes?

Uma homenagem, pontual, ofende os estatutos do clube!

Mas propaganda na sagrada e centenária camisa pode! Logotipo de multinacional na sagrada e centenária camisa pode! Pode Diadora! Pode Sistema de Ensino GIP! Pode Caixa! Pode Eletrobrás! Pode Supermarket! Pode SBT! Pode 3B.Rio! Pode Coca-Cola! BFG Pode! Só não pode na sagrada e centenária camisa solidariedade a um coirmão após uma grande tragédia.

A repugnante carta do dia 15 de fevereiro de 2019 é uma afronta, ainda que sobre assuntos distintos, à carta de 7 de abril de 1924.

Os cerca de 9,3 milhões de vascaínos, a quinta torcida do País apesar de todos os problemas nas últimas décadas, devem dar uma Virada História, mostrar que o clube ainda é o Gigante da Colina e expurgar, através do voto e de protestos, esses anões que sujam o nome do grande Club de Regatas Vasco da Gama.

Navegar é preciso!

Coca-cola podeBFG pode 3B Rio pode SBT pode 3B-Rio sim Supermarket pode 1

————————————————————————————————————————————————————————————————————————————————————————————–

 

Airton Gontow é jornalista, cronista e diretor do site de relacionamento Coroa Metade.

Curta e compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Delicious
  • LinkedIn
  • StumbleUpon
  • Add to favorites
  • Email
  • RSS