O escritor e empreendedor ambiental, social e cultural Kaká Werá é o primeiro índio a ser candidato ao Senado na história do País (pelo PV, por São Paulo).  É autor de obras como “Oré Awé – Todas as vezes que dissemos Adeus”, “As Fabulosas Fábulas de Iauaretê” e “A Terra dos Mil Povos”. (veja na sequência da matéria os textos “Alguns fatos interessantes na trajetória de Kaká WerᔓPropostas de um índio para o Senado – Sete eixos temáticos considerados por Kaká Werá como fundamentais para que  o estado de São Paulo atinja um salto qualitativo no seu desenvolvimento” e “Um pouco da minha história”).

 

Kaká Werá, candidato ao Senado

O escritor e empreendedor ambiental, social e cultural Kaká Werá é o candidato do PV ao Senado, por São Paulo. É o primeiro índio candidato ao Senado na história do País.

Nascido em 1º. de fevereiro de 1964, em São Paulo, Kaká Werá viveu a juventude entre os guaranis, no bairro de Parelheiros, na capital paulista. No início de 90, criou a primeira editora indígena do País, a Nova Tribo, pela qual publicou, em 92, o romance autobiográfico “Oré Awé – Todas as vezes que dissemos adeus”, em edição bilíngue (português/inglês). Depois, a obra foi publicada pela editora Triom. O primeiro livro de Kaká e a editora indígena impulsionaram um movimento que culminou no estímulo e fomento de escritores indígenas. Anos depois, a Nova Tribo se transformou no Instituto Arapoty.

Kaká Werá também escreveu e “A criação do mundo segundo os guaranis – A Voz do Trovão” (2013), publicado pela Editora Antroposófica em conjunto com o Instituto Arapoty, em edição bilíngue (português e alemão) e, pela editora Perópolis, “As Fabulosas Fábulas de Iauaretê” (infantil, 2007), “A Terra dos Mil Povos” (1982, Paradidático) e “Tupã Tenondé” (1998, filosofia tupi-guarani).  Com participação de Moreno Veloso, Kaká lançou há sete anos, pela Azul Music, o belo e original CD “Porã-Hei”, que pode ser encontrado em sebo virtual.

Há mais de 20 anos Kaká atua como empreendedor social, unindo equilíbrio ecológico, valorização de culturas e geração de renda. Atua em projetos em diversos estados do País, especialmente São Paulo e participa como professor e facilitador de seminários e cursos no Brasil e no Exterior.

 

Alguns fatos interessantes na trajetória de Kaká Werá

Kaká Werá: cultura indígena e universal

3. Em 1998, Kaká Werá foi um dos fundadores na ONU da URI (United Religions Initiative), que existe hoje em mais de 50 países e luta contra todo tipo de dogmatismo e fundamentalismo religioso;2. Kaká foi amigo, desde 2001, de Danielle Miterrand, que apoiou diversos projetos sociais no Brasil;

4. Desde 2003 é conselheiro da Bovespa Social e Ambiental, que já apoiou projetos ambientais pelo Brasil;

5 – É, além de empreendedor social, ambiental e cultural, escritor. Publicou os seguintes livros: “Todas as Vezes que dissemos Adeus” (1992), “A Terra dos Mil Povos” (1996), “Tupã Tenondé” (1998), “As fabulosas fábulas de Iauaretê” (2007) e “A criação do mundo segundo os guaranis – A voz do Trovão” (2013).

6 – Criou a primeira editora indígena do País, a “Nova Tribo”, que se transformou no Instituto Arapoty e que fomentou o surgimento de novos escritores indígenas (hoje são mais de 40 no País);

7 – Deu palestras, cursos e workshops em dez países: Inglaterra, Estados Unidos, França, Escócia, Índia, México, Israel, Paraguai e Argentina, algumas delas em universidades, como Oxford, Stanford e Lille;

8 –  Kaká Werá coordena um projeto para que a Lei Federal 11645/2008 seja cumprida. A Lei determina que as Escolas devem ter em suas grades curricular o ensino das contribuições das culturas indígenas e afrodescendentes na formação da cultura brasileira. “Nossa ação passa basicamente por dois movimentos: a conscientização das autoridades de ensino e diretores das escolas sobre a obrigatoriedade do cumprimento da Lei e a aplicação de conteúdos que preparam os professores e os próprios diretores para a abordagem desses temas tão relevantes nas escolas”, diz Kaká Werá;

9 – Ativista social e escritor, Kaká Werá prepara, em parceria com a UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e a UNB (Universidade de Brasília) um EAD (ensino à distância), cujo conteúdo aborda a contribuição indígena para a formação cultural do País, que será disponibilizado gratuitamente para professores e diretores de todo o País;

10 – Participou de novelas e programas da televisão brasileira:  “O Guarani”,  TV Manchete (1989 – no elenco);  “A Muralha”, TV Globo (2003 – consultoria), “O Rei do Gado”, TV Globo (consultoria) e “O Sagrado”, Fundação Roberto Marinho;

11 – Fez com Moreno Veloso o cd “Porã-Hei – A Tradição do Sol, da Lua e dos Sonhos”. O cd mesclou cantos indígenas e música eletrônica.  (Kaká também compôs a música “Tupã”, com Naná Vasconcelos, para o cd “Trilha”, do percussionista;

12 – Os livros de Kaká foram adaptados para duas peças de Teatro: “Oca”, direção de Ablílio Tavares, do Teatro da Universidade de São Paulo (TUSP), encenada pelo grupo “Contadores de Histórias”; “Corpos de Luz”, adaptação de “Tupa Tenonde”, feita por Paula Vital, com participação de Nana Vasconcelos. Além disso, Kaká escreveu “Morená”, baseado no mito de criação do mundo do povo “Kamaiurá”, encenado pelo grupo Arapoty;

13 – Este ano (2014) foi, através do Instituto Arapoty,  o tema do documentário “O Povo Dourado somos nós”, baseado no livro mais recente de Kaká, “A criação do mundo segundo os guaranis” (2013).

 

Sete eixos temáticos considerados por Kaká Werá como fundamentais para que o estado de São Paulo atinja um salto qualitativo no seu desenvolvimento 

 

  1. Educação: enfoque na melhor qualificação de quem aprende e de quem ensina, pois São Paulo forma, infelizmente, nas escolas públicas, analfabetos funcionais. Isto porque o professor não tem tempo de aprofundar seus saberes e didática, além de ganhar mal; e o estudante não tem oportunidade de ficar o período integral na escola, para aperfeiçoar-se cultural e tecnicamente, assim como praticar esportes;.

 

  1. Cuidado com as águas: a questão das águas exige o foco em um tripé de ações: a) combate ao desperdício, promovido pelo próprio estado, onde cerca de um terço da água se esvai pelo não investimento em manutenção e tecnologia atualizada. b) estimular uma política pública de reuso das águas e c) preservar nascentes e ecossistemas;
  1. Mobilidade: diversificar os meios de transporte, investindo em qualidade de ferrovias e tornar a navegação possível em determinados rios. Investir em combustíveis não poluentes e controlar a emissão de gases nas cidades com mais de 200 mil habitantes;
  1. Energia: Incrementar o uso da energia solar e, em alguns casos, eólica, como estratégia econômica e ecológica. Promover a economia através do investimento na descarbonização da energia;
  1. Valorização da agricultura familiar e investimento no sistema orgânico de plantio. Precisamos desintoxicar a terra. Não há qualidade de vida e saúde de fato se não chegarem à nossa mesa alimentos verdadeiramente saudáveis;
  1. Cultura de Paz: a implantação de uma política de cultura de paz será crucial para o avanço do estado de São Paulo. A promoção do respeito à diversidade cultural; o combate à discriminação de raça, credo, cultura e o equilíbrio entre direitos e deveres humanos são ações imprescindíveis para nosso estado cosmopolita.  Uma das propostas do PV é transformar o sistema carcerário de universidades do crime para universidades de regeneração e cidadania, através do tripé trabalho, educação técnica e orientação social sistemática. Devemos equilibrar punição com regeneração;
  1. Índios/Diversidade: a situação indígena em São Paulo, particularmente na capital, é degradante porque o estado nunca se preocupou em aplicar uma política pública específica que estimulasse a sustentabilidade econômica e social e a valorização cultural dos povos, assim como o fortalecimento de uma cidadania dos remanescentes indígenas e seus descendentes, através do favorecimento de uma educação diferenciada que respeite a particularidade de seus saberes.

 

Um pouco da minha história

 Por Kaká Werá

Um dos meus principais trabalhos se relaciona diretamente com a natureza. Há mais de duas décadas conduzo grupos de pessoas para as matas, através de trilhas e clareiras, em roteiros com o propósito de sensibilização, contemplação e de autoconhecimento. Sempre integrando a paisagens naturais uma sabedoria ancestral, que convencionamos chamar de indígena, mas que vem de diversas culturas nativas brasileiras, predominantemente tupi e tapuia.

Desde 1994 tenho abordado atividades pelo enfoque em valores humanos e cultura de paz, quando comecei na Fundação Peirópolis de Educação em Valores Humanos e na Unipaz; organizações que atuo até hoje. Estas instituições me propiciaram um aprofundamento em estudos nas tradições indígenas do Brasil e me deram a oportunidade de difundi-las em cursos, seminários e imersões.

No entanto, além de professor e facilitador de seminários e cursos; desde meados dos anos 80, com o povo guarani de São Paulo, destino considerável parte do meu tempo em projetos sociais em comunidades indígenas. Os povos do Sudeste e do Nordeste também têm sido o meu foco de atuação e desenvolvimento de pequenos suportes, na grande maioria das vezes voluntários.

As comunidades indígenas de modo geral são extremamente dependentes de programas assistencialistas governamentais há décadas, e isto enfraqueceu não somente a identidade cultural, mas também a dignidade social de diversas etnias; influenciando diretamente em sua capacidade de sustentação econômica e ecológica. Quando percebi este quadro, no fim dos anos 80, juntamente com amigos, e depois com minha família, colocamos em curso uma série de iniciativas em direção à valorização cultural e geração de renda. Foi assim que passamos a fomentar apresentações culturais para os guaranis, kariris e pataxós. Estimulamos a gravação de CDs, produção de livros, inserção em seminários, fóruns e congressos.  E isto causou um choque em uma parcela da sociedade, que via na época, início dos anos 90, o índio como algo fadado à extinção ou cuja cultura não poderia transcender os limites de seus modos tradicionais de vida.

Neste período, alguns povos começaram a buscar alternativas sustentáveis e foram criando certa independência social. Esse fenômeno aconteceu simultaneamente na Amazônia, no Nordeste, no Sudeste e nas áreas urbanas. E modelos se influenciaram mutuamente. Em minhas empreitadas pelas aldeias sempre coloquei a importância de aliarmos três causas: a questão da cultura, a questão da educação e a questão do ambiente. Entendia a cultura como uma qualidade imprescindível e local a ser cuidada; a educação como uma ferramenta de combate a distorções históricas em relação às nossas raízes afro-tupi que geraram discriminações e desestruturações sociais; e o ambiente como um bem global a ser manejado com sabedoria e cautela.

Com o passar do tempo, projetos e ações foram realizadas, e com isso vieram alguns inesperados reconhecimentos. Em 2003, a Bovespa criou um braço de apoio a projetos ambientais para organizações do terceiro setor e chamou-me para ser um dos doze conselheiros. Em seguida, 2005, a Ashoka Empreendedores Sociais, entidade de reconhecimento mundial, honrou-me com a valorização e premiação da ideia que gerou uma nova tecnologia social voltada para as comunidades, com as quais eu trabalhava na época e que foi aperfeiçoada através do Instituto Arapoty.  Descobri que era um empreendedor social, ao unir equilíbrio ecológico, valorização de culturas e geração de renda. Fui chamado para falar disso em diversos países, como Estados Unidos (em San Francisco, Stanford), França (na Unesco) e Inglaterra (Oxford) em ambientes de públicos diversos, como líderes religiosos, líderes do terceiro setor e empresários.

Em 2010, a revista “Trip” reconheceu o conjunto de ações que desempenhava como transformadoras da sociedade, o que para mim e a equipe de trabalho que me acompanha há décadas, foi uma grata e feliz surpresa.

Nessa época, comecei a achar que passava da hora de haver uma política pública que saísse de premissas assistencialistas para um novo paradigma: o empreendedorismo sustentável e cooperativo. Já exitiam algumas experiências de sucesso com o Instituto Arapoty e com aliados A GENTE TRANSFORMA, onde sou parceiro de Marcelo Rosenbaum em seu programa social; e o Instituto Elos, onde há 14 anos formamos na ESCOLA DE GUERREIROS SEM ARMAS, um novo tipo de protagonismo juvenil, com foco na “cooperatividade” e desenvolvimento da cultura de paz.

De 1994 a 2014 trabalhamos em mais de 90 pequenas comunidades: indígenas, rurais, favelas, cortiços, caiçaras, populações ribeirinhas…; recuperando valores culturais e dignidade social. Foram mais de dez mil famílias que se tornaram gestoras de sua condição econômica e cultural. Projetos realizados com muito voluntarismo, poucos recursos financeiros iniciais e muito respeito à diversidade. Estas iniciativas fecundaram em mim uma síntese de experiências passíveis de colaborar também em propostas de políticas públicas.

Encontrei no Partido Verde um espaço político que acolhesse dentro de suas ideias chaves a inclusão da cultura de paz, da valorização da diversidade e a geração de projetos sociais empreendedores com foco na sustentabilidade. E o Partido Verde me dá agora a oportunidade de ser protagonista de uma possível mudança, não somente no modo de se fazer política, não somente de aparências; mas uma mudança genuína e transformadora na relação com a diversidade cultural e criativa que forma esta nação chamada Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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