Por José Luiz Goldfarb

 

José Luiz Goldfarb

Aproxima-se mais um Iom Kipur (das 17h39 da sexta-feira, dia 13 de setembro, às 18h33 do sábado, dia 14), o Dia do Perdão no calendário judaico, décimo dia do recém iniciado ano 5774. Uma celebração que atrai às sinagogas de todo o mundo milhares de judeus, mesmo aqueles que no restante do ano não têm o costume de participar de orações. Mas afinal porque esta data é tão especial para a comunidade judaica através dos séculos e milênios?

A chegada do novo ano dentro das tradições judaicas não corresponde exatamente a uma festa tipo Réveillon. Isto decorre exatamente do fato de que após o primeiro dia do ano contarmos estes dez dias, chamados “Dias Temíveis”, para então celebrar o Iom Kipur.

E porque “Dias Temíveis”? A explicação reflete uma característica bastante paradoxal da tradição judaica: se observarmos a quantidade de judeus e judias dedicados à prática médica; se pensarmos no complexo hospitalar Einstein em São Paulo; se computarmos as contribuições do Moderno Estado de Israel à descoberta de medicamentos e curas para tantas enfermidades (podemos citar por exemplo as contribuições do Instituto Weizmann e da Universidade Hebraica de Jerusalém)… Podemos, frente à tamanha participação nas ciências médicas concluir que a tradição judaica aposta decididamente no esforço humano para prolongar a vida humana na Terra. Isto ocorre hoje, isto ocorreu no passado mais distante. No entanto, e aqui está o aspecto paradoxal, o Iom Kipur parece negar todo este esforço. Pois acreditamos – e daí a intensidade deste dia – que é neste dia que teremos, ou não, nossos Nomes inscritos no Bom Livro, o Livro da Vida. Assim apesar de todo nosso esforço para com a ciência médica, no final das contas colocamos nas nossas orações e nossas reflexões o destino final de nossas vidas no ano que se inicia.

Assim, nossa fé nos ensina que ao meditarmos sobre nosso passado, podemos redefinir prioridades, atitudes, condutas e conseguir uma revisão sobre uma sentença negativa que afastaria nossos Nomes do Livro da Vida. Nossa perspectiva para o ano que se inicia pode mudar nosso futuro, especialmente quanto a sobrevivermos ou não no novo ano.

Assim somos tomados de um espírito crítico em relação ao que temos feito em nossas vidas, buscando as brechas para uma conduta que realmente represente um up grade, uma melhoria em nossas ações em todos os níveis de nossas existências: nas relações familiares, comunitárias, de trabalho… enfim queremos rever, reavaliar nossa ação como cidadãos em nossas vidas.

Hoje, num mundo tão conectado e de tantas redes sociais, podemos, inspirados inclusive pelas palavras do Papa Francisco, afirmar que é o diálogo entre as pessoas, culturas, povos e paíse, o grande diferencial a imprimir em nossas ações.

Nunca se comunicou tanto e talvez nunca se prescindiu tanto do diálogo. Assim desejamos que este Iom Kipur que se aproxima seja uma oportunidade para que cada um individualmente e a comunidade como um todo encontre os canais para que o diálogo entre os homens possa aflorar intensamente em nosso mundo. Esta será sem dúvida o início da cura para tantos males que afligem o mundo contemporâneo.

 

José Luiz Goldfarb é presidente da Cátedra de Cultura Judaica da PUC-SP, curador há 22 anos do Prêmio Jabuti, consultor da Secretaria da Educação da cidade do Rio de Janeiro no projeto “Rio uma cidade de Leitores”; coordenador do programa #REDEMIS, no Museu da Imagem e Som (MIS), de São Paulo e diretor da campanha #doeumlivro.

 

 

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