Airton Gontow, idealizador e diretor do Coroa Metade

Gontow, diretor do Coroa Metade: “o Facebook do vizinho é sempre mais atraente!”

O jornalista e cronista Airton Gontow, idealizador e diretor do site de relacionamento Coroa Metade, voltado para pessoas a partir de 40 anos de idade, fala nesta entrevista sobre relacionamento nos tempos atuais e dá as dicas para quem está à procura de um amor em 2017.  Criado há pouco mais de quatro anos, o Coroa Metade chegou a 201 mil cadastrados e 44 casamentos.

 

Ter como objetivo achar um amor no site ajuda a ter mais determinação e realmente encontrar o que se procura?

Sim, querer encontrar um amor ajuda muito na busca. Existe uma ideia errada de que a pessoa mais madura sabe o que quer. Isso é uma balela! Ninguém sabe exatamente o que quer! Mas uma das grandes vantagens da pessoa ser mais velha é ao menos saber o que não quer. Saber que não quer ter um casinho e que não quer encontrar alguém simplesmente para ficar ajuda muito na hora de se encontrar um amor.

 

Em geral, as pessoas hoje querem compromisso ou curtir a “solteirice”?

Depende do grupo ou mesmo do momento de cada um. No site Coroa Metade, como é voltado para pessoas acima dos 40 anos, há uma tendência de se buscar um compromisso mais sério. O que se vê por aí, no caso das mulheres separadas, é que poucos meses após a separação já querem conhecer alguém. Já o homem, por dois ou três anos quer curtir a solterice, até que cai a ficha de que está sozinho. Ele vê que ontem estava em uma festa cheio de companhias e que agora está com febre em casa e não tem ninguém para ficar com ele, que não aparece ninguém para dividir os momentos difíceis. Mas, claro, existem pessoas que querem ser solteiras para sempre e não precisam de um companheiro ou companheira para serem felizes. Mas a maioria ainda quer alguém para dividir os grandes e pequenos momentos, as horas boas e as horas difíceis da vida.

 

Tem gente que diz ser feliz solteira. É uma característica da sociedade atual? É uma felicidade autêntica, real? Qual a necessidade de um companheiro (a) e de sexo?

É possível sim ser feliz solteiro. E é claro que dá para ter uma boa vida sexual mesmo sem ser casado. Quem reclama quando está solteiro, também reclama quando se casa. A felicidade também depende de como encaramos a vida. Um dos aspectos positivos da sociedade atual é existir menos cobranças no tocante aos modelos familiares. Você não precisa casar nem para ser feliz, nem para mostrar para os outros. Você não precisa ter filhos só porque a Sociedade assim exige. São opções de cada um. Mas, repito, de modo geral as pessoas um dia percebem que precisam ter alguém para compartilhar a vida. Até mesmo a maioria dos solteiros convictos.

 

Como fazer para que o desejo de encontrar o grande amor não fique apenas na listinha de metas para 2017?

Ter foco. Se você quer ter um amor de verdade, de nada adianta ir para a balada e ficar com o primeiro ou primeira que aparecer. Também é ideal frequentar lugares onde existem pessoas com o perfil que você procura, seja em um site de relacionamento, seja em um curso de meditação, em uma escola de dança, em uma igreja ou uma viagem de ecoturismo.

 

Existe alma gêmea, metade da laranja? Como saber que a pessoa escolhida é a certa?

Acredito que existem pessoas que são feitas para você. Mas é preciso estar conectado e ligado ao que você realmente é e busca. Um exemplo: conheci minha esposa em um lugar impensável, um baile de Carnaval. Mas veja, era um Carnaval à Moda Antiga, bem familiar, com marchinhas antigas e sambas enredos clássicos. Se eu tivesse ido a uma reve, provavelmente não a perceberia, mesmo que ela estivesse dançando quase ao meu lado, porque eu estaria conectado de forma diferente. Tem que ser a pessoa certa, mas a gente precisa estar no momento certo e no local certo também

 

Deve-se procurar alguém com muitas semelhanças ou com coisas diferentes, para somar abrir novos horizontes? Até que ponto as diferenças atrapalham?

Há muitos tipos de casais e não há fórmulas, mas falando em termos gerais, quando as pessoas são parecidas e com gostos e objetivos semelhantes, os relacionamentos são melhores e mais duradouros. Na maioria das vezes, quando os opostos se atraem, a atração dura pouco. Talvez até possamos dizer que “os opostos se traem”. Claro que a outra pessoa não precisa ser igual. Ninguém deseja ou deveria casar com o próprio espelho, embora o mundo moderno seja tão convidativo ao narcisismo. O fato é que é mais provável que se eu gostar de cinema europeu e a minha esposa de teatro, um acabe acrescentando uma nova paixão no outro, do que se eu gostar de cinema europeu e a minha companheira adorar pagode, existir uma soma verdadeira.

 

O que procurar no outro? Beleza, estabilidade, boa conversa, costumes, objetivos de vida? Deve-se priorizar o presente (bom companheiro (a)) ou o futuro (bom marido/mulher)?

É algo que não dá para aconselhar. Depende de cada um. Se uma mulher não tem atração por baixinhos, é difícil dizer que ela tem que investir na relação, porque ele é sério, estável e será um bom marido. Se a conversa com a mulher que o cara está saindo não flui, se o cotidiano não é gostoso, não dá para dizer para que como ambos querem casar e ter filhos, devem continuar juntos porque no futuro serão felizes. Um casal de namorados que não é feliz hoje não será feliz depois de casado! Mas, tudo bem, aqui vai um conselho: se possível, se aproxime de alguém com valores e objetivos semelhantes. E não deixe que a carência afetiva faça você ficar com alguém que não tem nada a ver com aquilo que procura.

 

O que avaliar e aprender com relacionamentos anteriores?

O importante é não repetir os relacionamentos anteriores! Infelizmente a maioria das pessoas repete situações e modelos nas novas relações. Está sempre procurando, inconscientemente, pessoas parecidas com o companheiro ou a companheira anterior. As mulheres, em especial, têm que tomar cuidado com essa história. Conheço mulheres que tiveram durante anos um relacionamento ruim. Com um homem casado que sempre dizia que ia deixar a esposa depois que a filha se formasse, depois que…Ou com um chefe que não podia assumir a relação! São mulheres que passaram anos sofrendo, pensando o tempo todo no homem amado. “Será que ele vem aqui no Natal?”, “Será que finalmente ele vai assumir-me diante dos outros”…Anos e anos sofrendo e pensando o tempo todo em seu amor. E quando finalmente conseguiram se livrar dessa relação neurótica e encontraram um novo companheiro, legal, fiel e apaixonado, simplesmente sentiram que faltava alguma coisa na relação. “Eu gostaria de estar apaixonada por você, mas falta algo”, disseram. Sabe o que faltava? A neurose! O sofrimento! Isso porque quando a gente ama e é amado de verdade não pensa 100% do tempo no amado. A gente é livre para ler, para curtir estar com os amigos, para visitar os irmãos… Somente em uma relação neurótica e infeliz a gente pensa 100% no outro. Não é amor; é doença!

 

É mais difícil quando alguém já teve um relacionamento longo e que acabou por algum motivo traumático?

Gontow no início do site, em 2012

Airton Gontow no início do site, em 2012

Na mesma linha da pergunta anterior, depende muito do aprendizado de cada um. Muitas pessoas levam as dores e traumas das relações anteriores para as seguintes. O relacionamento é mais fácil para a pessoa que, após colocar no “outro” toda a culpa do fim de um namoro ou casamento, aos poucos percebe também erros que ela própria cometeu. Esse é o verdadeiro segredo para que uma nova relação! Claro que todos têm questões tristes e mesmo traumáticas dos relacionamentos que acabaram, mas, como diz aquela velha frase, “o segundo casamento é o triunfo da esperança sobre a experiência”.

 

E como encarar quando o outro tem filhos? Muitas pessoas têm medo…

Acho que o verdadeiro questionamento deve ser feito por quem tem filhos. Se uma mulher tem, por exemplo, um filho de cinco anos e outro de sete e o homem que ela conheceu não quer alguém com filhos, deve pular fora. Ou melhor, nem entrar! É importante que a pessoa – seja homem ou mulher – deixe claro que tem filhos, que mora com eles e que são fundamentais na sua vida. No Coroa Metade,  esta situação é um pouco mais tranquila, porque os filhos já estão crescidos e muitas vezes até já moram fora de casa. Assim, são raros os usuários que não querem alguém que tenha filhos

 

As pessoas fazem a distinção entre paquera para uma relação casual e paquera para um relacionamento sério?

Vai muito do ambiente que a pessoa frequenta, seja ele virtual ou real. Ou do tipo de abordagem, se é uma frase feita ou não. Mas é preciso ter cuidado; não é porque alguém tem um repertório menos variado de paquera e diz “Que olhos lindos, gatinha!”, que deve ser ignorado ou descartado. Muitas vezes pessoas superficiais têm cantadas maravilhosas e quem busca um relacionamento sério tem cantadas tolas. E mais: não dá para pensar sempre “isso é casual ou é sério?” Quantos casais maravilhosos não surgiram de uma relação que nasceu de uma “paquera casual”?

 

Qual a importância de não depositar no outro a responsabilidade da felicidade?

É fundamental. Ter objetivos individuais, paixões, amigos, uma boa família, tudo isso ajuda demais na hora em que a gente encontra um amor.

 

E qual é a importância de ter atividades e uma vida social ativa?

Vale o mesmo que para a pergunta anterior. Uma vida social torna a pessoa menos dependente. Quando é inexistente, quando a solidão apavora, o cenário está montado para a gente se apaixonar pela primeira pessoa que aparece. Mas ressalto que teria um pé atrás em uma relação onde a mulher que conheci não abdicasse em nada da sua vida social pela nossa relação. É preciso manter os amigos, é preciso ter momentos individuais, mas quase todos os casais que conheci onde os dois viajavam sozinhos com os amigos, saíam para dançar sozinhos…acabaram se separando.

 

Onde procurar este alguém especial?

Em lugares onde há chances de encontrar pessoas com o perfil procurado. O grande diferencial do site Coroa Metade é as pessoas buscarem alguém da mesma faixa etária e colocarem o perfil que buscam. “Quero alguém que não fume”, “Quero uma mulher que viva na minha cidade”, “Quero uma pessoa religiosa”… As chances se tornam maiores. Mas não basta procurar: é fundamental deve estar aberto, atento e focado. Muitas vezes a pessoa que procuramos está ao lado, mas não vemos…

 

Vale procurar em balada também?

Se a pessoa é do perfil que adora baladas, não tem porque não frequentar. Muitas pessoas em baladas buscam relacionamentos casuais, mas há também muita gente à procura de uma relação estável. O que vale muito são os dias seguintes. Se a pessoa liga, se volta para a balada sozinha…

 

Mulher pode ter atitude?

Claro que sim! Há homens mais tímidos ou simplesmente desligados. Não há nada demais em uma mulher tomar a iniciativa. E se o homem não gostar? É porque ele não a merece.

 

Que roupa usar para passar a imagem de ser uma pessoa interessante mas não vulgar?

Isso é pessoal. Depende do gosto, da idade, do porte físico e do local em que se está. De modo geral, roupas muito expostas dão uma impressão ruim, de que a pessoa está se oferecendo, o que não é bom, especialmente quando se busca um grande amor.

 

Como iniciar a conversa? Que assuntos falar, sobre o que conversar?

A pessoa deve ser a mais natural e verdadeira possível e procurar não fazer frases feitas. Também é importante perguntar sobre o(a) outro(a) e não falar só sobre ela mesma. Também é recomendável não contar muitos problemas no primeiro encontro e principalmente não passar horas e horas falando sobre a ex ou o ex. Claro que estou falando em termos genéricos. Também depende muito do local onde se está. Tem gente que quer contar a vida no meio de uma balada com o som altíssimo! Quando vi minha mulher pela primeira vez, no Carnaval, demorei para ir até ela. Procurei-a no salão e não a vi. Por sorte, olhei para a porta e ela estava saindo do Avenida Club, já quase na rua. Fui correndo, toquei-a levemente no braço e disse: “Oi, eu não sei dançar mas sou bom de papo. Quer tomar um café comigo?” Ela aceitou e nunca mais nos desgrudamos. Tenho um casamento felicíssimo. Amamos ficar em casa, mas muitas vezes saímos, veja só, para dançar…Foi uma das muitas coisas que ela me ensinou.

 

Dispositivo móvel superou o desktop

Site Coroa Metade no celular

 

O fato de ter aplicativos e sites ajuda no relacionamento das pessoas ou, de alguma forma, faz com que as pessoas se relacionem mais superficialmente, pela facilidade de encontrar outro parceiro casual?

Assim como acontece no mundo lá fora, depende do lugar frequentado e da postura de cada um. Se você está em um site de relacionamento com homens de 60 anos e jovens de 20, há mais chances de relacionamentos ocasionais. O mesmo vale para alguns aplicativos. Mas não é uma regra. Nem há o certo ou o errado. Depende também da busca de cada um. Quem entra no Coroa Metade, por exemplo, geralmente busca um relacionamento mais sério. Ao escolher pela faixa etária, gosto, objetivos de vida e vários outros aspectos, as pessoas fazem uma triagem justamente para ter relações mais profundas, sem nada de superficial.

 

Antigamente falava-se que quem entrava em sites eram pessoas solitárias ou que não conseguiam se relacionar com ninguém. E hoje, qual o perfil de quem busca ajuda em algum aplicativo ou site? Idade?

Existem as pessoas solitárias e sem habilidade social também! Mas de modo geral não há um perfil único. No Coroa Metade há mulheres de 41 anos, com um filho de 4 e outro de 7, que não querem sair o tempo todo e deixar os filhos em casa e talvez conhecerem em um barzinho um homem que não quer uma mulher com filhos; há aquele empresário viúvo que vai de casa para o trabalho, do trabalho para casa e não quer ter um caso com uma mulher da sua empresa e talvez estragar o ambiente profissional se o relacionamento não vingar; tem aquela moça bonita que é cantada em tudo o que lugar, mas só conhece o ‘homem errado’, porque gosta do Chico Buarque e ele de pagode, porque gosta de comida japonesa e ele só vai ao fast food, porque ama viajar e ele acha uma perda de tempo e de dinheiro…; tem aquele senhor de 60 anos que vive em uma cidade de 30 mil habitantes a 50 km de São Paulo…Enfim, há diversos tipos de pessoas.

 

Não são apenas jovens que buscam esta ajuda. Como os mais velhos encaram a barreira da tecnologia?

As pessoas mais velhas têm aderido à tecnologia. Por vários fatores que afetam a todos, como a tecnologia mais acessível, o trânsito ruim, a violência, as grandes distâncias e a falta de dinheiro para sair. Também porque quem tem hoje 60 anos, há 20 tinha 40 e estava no mercado de trabalho, já utilizando o computador. É interessante perceber que da mesma forma que há décadas muitos jovens recebiam o primeiro carro (geralmente um Fusca!) dos pais, hoje muitas pessoas mais velhas recebem o primeiro micro, usado, dos filhos ou mesmo netos.

 

Os encontros, hoje, são mais imediatos do que antigamente? Quando é o momento certo para encontrar algum paquera de site ou aplicativo?

Sim, muitas vezes são mais imediatos. O ficar está em toda a parte! Nossa indicação no Coroa Metade é que a pessoa fale bastante primeiro pelo site e preste muita atenção nos pequenos detalhes. Se a pessoa que está se interessando por você perguntar três vezes, ainda que em dias diferentes, qual é a sua profissão ou quantos filhos você tem, é um forte indício de que o interesse não é real ou de que ela está flertando ao mesmo tempo com várias pessoas; se diz que é médica e, uma semana depois, conta que é advogada, fica claro que está mentindo. Outras dicas se referem ao primeiro encontro. Quando marcar o primeiro encontro, faça sempre em um lugar público, como um shopping center. Não deixe a pessoa buscar você em casa. Vá por conta própria.  Peça para alguém telefonar para você, e responda algo do tipo: “cheguei, sem está tudo bem. Estou aqui no Shopping Center tal…”, para deixar claro que seus amigos e parentes sabem que você foi encontrar uma pessoa que conheceu no site. Na hora de voltar, por mais simpática e atraente que a pessoa seja, retorne também por conta própria. A maioria dos usuáriod tem boas intenções, mas é preciso tomar os mesmos procedimentos que você teria, por exemplo, em um barzinho, quando alguém olha para você e inicia uma conversa

 

Que outras dicas podemos dar para quem está à procura do grande amor da vida?

Entre com o coração aberto e acredite que sempre é tempo para ser feliz. Mágoas e tristezas fazem parte da vida. Há milhões de pessoas em todo o mundo que se encontraram pela Internet e hoje são casadas e felizes. Ou seja: entre 100% peito aberto. Mas também ingresse no site com a mente 100% atenta, lembrando de todas as dicas e de tudo o que você sonha e busca. Não há contradição alguma entre o sentir e o pensar, entre a paixão e a razão…Também é importante saber que por mais autentica e verdadeira que uma pessoa for, não existe essa história de “Relacionamento Virtual”. O meio é que é virtual. O relacionamento é real! O que vale é a hora do encontro, o olhar, a energia, o beijo, o cheio, o toque… Não somos máquinas! Somos seres humanos! E depois disso, o que vale é o cotidiano e é preciso saber viver o dia-a-dia. Todo mundo é perfeito à distância. Todo mundo tem uma vida maravilhosa pelas Redes Sociais. O Facebook do vizinho é sempre verde e atraente! Na vida real existem problemas, existem momentos desgastantes e não dá para ser feliz o tempo todo. A vida não é uma propaganda. O verdadeiro amor implica também em tolerância, em compreensão e em ser companheiro nos grandes e pequenos momentos, nos instantes de plenitude e nas horas difíceis.

 

 

Airton Gontow, 55 anos, é cronista, jornalista e diretor do site de relacionamento Coroa Metade (www.coroametade.com.br)

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