Por Airton Gontow

 

Com o ar-condicionado do meu carro quebrado eu procurava desesperado algum lugar para um rápido conserto. Afinal, fazia um calor incrível e em pouco tempo deveria buscar Jair Rodrigues para uma entrevista a uma emissora de televisão sobre a temporada que ele começaria em pouco tempo no Bar Brahma.

Prudente, liguei para avisar sobre o eventual atraso e expliquei o motivo. Ele caiu na gargalhada e pediu que eu fosse imediatamente, “sem consertar coisa alguma”.

Em pouco tempo cheguei a sua casa-sítio em Cotia, próximo à rodovia Raposo Tavares, a poucos quilômetros de São Paulo.

Entrei na sala e nosso primeiro encontro foi meio de cabeça para baixo. Explico: lá estava ele, acostado à parede, próximo ao sofá, plantando bananeira, aos 60 e tantos anos de vida!

Logo que me viu, saiu daquela inusitada posição e veio com o braço estendido e sorriso largo em minha direção: “Que ar-condicionado que nada! Andei tanto de ônibus, táxi, em carros  quebrados… A janela do carro abre? Além disso, eu adoro calor” – disse, para logo após acrescentar: “Depois de tanta conversa por telefone finalmente nos conhecemos pessoalmente!”

Pouco depois estava no meu carro, com os vidros abertos, contando histórias engraçadas, emocionantes e curiosas – muitas vezes tudo isso ao mesmo tempo. E ouvindo meus causos também, porque Jair Rodrigues era desses famosos que não ficaram afetados ao se tornarem celebridade e continuava a ver riqueza em cada pessoa que conhecia.

Além de alegre, era saudável e forte. “Planto bananeira todos os dias. E tenho mais vitalidade que muito jovenzinho”, disse orgulhoso, como se eu nunca tivesse o assistido no palco!

Ficarão para sempre sua espontaneidade, suas estupendas interpretações e sua alegria contagiante, embora eu pudesse perceber nele algum ressentimento por muitas vezes não ser reconhecido como um grande intérprete, como acontece com sua Elis Regina (1945 a 1982), sua parceira em “O Fino da Bossa’, na TV Record.

Contou-me Jair que ao saber que ele poderia ser o intérprete de “Disparada” no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1966, Geraldo Vandré, compositor da música (com Theo de Barros), reagiu e afirmou que não queria que “esse sambista” interpretasse a canção. “Mas quando ele me ouviu cantando, logo aceitou, com respeito e admiração. E acabamos vencendo o Festival”, disse.

O grande Jamelão (1913 a 2008) reagia irritado ao ser chamado de puxador: “eu não sou puxador! Quem puxa é o cavalo que leva a carroça; quem puxa é maconheiro! Eu sou é intérprete”, dizia, ainda que com certo exagero, porque em minha casa abusou do direito de definir-se como puxador da Mangueira.

Se fosse do seu feitio, Jair poderia reagir irascível à alcunha de sambista: “Não sou sambista coisa alguma. Eu sou é intérprete!”, diria.

Jair Rodrigues era um grande cantor, com notável alcance de voz e encantador uso de altos e baixos, graves e agudos…

Dentre todas as músicas que cantou, destaco “Chão de Estrelas”, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, onde vemos toda a beleza da sua voz e inconfundível interpretação (https://www.youtube.com/watch?v=7CQV55TUAPs).

 

Neste dia quente e abafado, em pleno outono paulistano, ouço a notícia de Jair Rodrigues se foi, aos 75 anos de vida.

De infarto, na sauna, no calor que tanto gostava.

Ficamos todos um tanto sem chão.

De corações disparados.

E tristes.

Há mais uma estrela no céu!

 

Airton Gontow, idealizador e diretor do site Coroa Metade (www.coroametade.com.br)  é jornalista e cronista. Trabalhou com Jair Rodrigues como assessor de imprensa de alguns dos seus shows no Bar Brahma, em São Paulo.

 

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