É ótima dica de viagem, especialmente para o período que vai do Natal ao aniversário da cidade, 12 de janeiro.

 

Texto e fotos de Airton Gontow

 

Vista do ver-o-peso a partir do Forte

No início da década de 70, em Belém do Pará, ao sair extenuado do gramado no intervalo de um jogo contra uma equipe local, disputada sob um sol arrasador de 44° C, o centroavante Claudiomiro, do Inter de Porto Alegre, foi abordado ao vivo por um repórter gaúcho “Como tu estás te sentindo?” O atacante colorado respondeu: “Estou muito emocionado de jogar onde Jesus Cristo nasceu”.

Conhecido pela sua falta de cultura e alvo de brincadeiras dos outros jogadores, Claudiomiro é também o verdadeiro autor da célebre explicação para a perda de um gol fácil: “a bola veio em curva, eu não sabia se ia, se não ia, acabei não fondo e perdi o gol”.

Folclores à parte, Belém do Pará, onde Jesus Cristo, é claro não nasceu, é uma excelente dica de viagem para todas as épocas do ano, especialmente para este período que vai do Natal ao aniversário de 399 anos da Cidade, no dia 12 de janeiro, passando pelos festejos de Réveillon. Outro período fantástico é o mês de outubro: no segundo domingo do mês, acontece, desde 1793, o Círio de Nazaré, procissão com 2 milhões de fiéis, a maior do país.

Há muito para se fazer na cidade mas nossa principal sugestão não passa pelos lugares, mas pelos sentidos e comportamento: esqueça o turismo tradicional; não busque atrações feitas para “turista ver”. Deixe-se levar pelos aromas, cores e sabores da cidade. Deixe-se encantar pelas generosas mangueiras que se espalham pelas ruas e avenidas: cerca de 20 mil!

Como não registrar para sempre o momento da chuva das 17h – que cai, sim, pontualmente quase todos os dias! Todo mundo corre para se abrigar debaixo das marquises dos prédios. Quando a chuva passa, o movimento é no sentido contrário: há muitas vezes uma correria desbaratada de volta para as ruas, já que todos querem pegar as mangas que a chuva ajudou a derrubar. A “chuva” de mangas é tanta que as seguradoras incluem no seguro os eventuais danos causados pela fruta.

O encanto vem também pelas pessoas, já que é a gente da terra, com seu jeito, sua cultura e seus costumes, que torna Belém inigualável. Com cerca de 1,7 milhões de habitantes, a cidade tem em sua formação influências indígena, negra, latina e europeia. Preste atenção na linguagem, repleta de expressões diferentes para quem é de outras regiões do país. Se alguém chamar você de “Pai-d’égua”, não parta para briga nem se ofenda. É um elogio. Significa que você é uma boa pessoa. Se uma comida é pai-d’égua é uma boa dica de que você deve prová-la.

Para conhecer Belém é só colocar roupas bem leves, tênis ou chinelos, boné, óculos de sol e, claro, muito protetor solar e sair para descobrir os encantos de uma das mais fascinantes e autênticas cidades do país.

Claudiomiro até que tinha razão em se sentir comovido. Cristo não nasceu em Belém do Pará. Mas a cidade é divina!

Ainda existem lugares em voos e hotéis para o aniversário da cidade. Corra e fique para se informar. Até porque será muito chato você dizer depois: “eu não sabia se ia, se não ia, acabei não fondo e perdi a viagem…”

 

O que visitar:

Estação das Docas – Complexo turístico de 32 mil metros quadrados, construído nos antigos galpões do porto de Belém. Diariamente há na Estação das Docas muitas opções culturais, especialmente de teatro, música e dança. Destaque para os palcos deslizantes – espécies de elevador que andam no sentido horizontal – com artistas apresentando ritmos diversos, em tom baixo, como música paraense, MPB e até rock. Os grupos da terra têm ainda espaço na orla com o criativo projeto Pôr-do-Som, além de várias produções teatrais. É a maior atração das noites de Belém e ponto quase obrigatório para grandes festas, como o Réveillon, com shows e queima de fogos. Com seus 500 metros de orla fluvial, permite momentos saborosos junto à baía do Guajará. Tem restaurantes, bares, cineteatro, mini fábrica de cerveja, lojas e serviços, livraria e sorveteria, além de um terminal fluvial para inesquecíveis passeios nas ilhas ou contornando a cidade, com direito a shows de dança no barco, com destaque para o carimbó. A Valeverde Turismo tem um passeio que acontece ao entardecer. Na Estação das Docas, difícil é decidir entre ficar do lado externo, aproveitando a beleza da vista, ou do lado de dentro, sob a proteção do ar-condicionado, sempre fundamental em Belém. Como sugestão gastronômica, vá ao restaurante Lá em Casa e saboreie os pratos paraenses – como o Pato no Tucupi e a Maniçoba. Boa dica também é o menu paraense. Obrigatório é conhecer a sorveteria da Cairu, com dezenas de sabores, como tapioca, cupuaçu, araça e bacuri paraense (açaí com farinha de tapioca). Não fica na Estação das Docas, mas é igualmente imperdível, o Tacacá da Dona Maria do Carmo, que há quatro décadas atrai turistas e gente da própria cidade.

Museu Paraense Emílio Goeldi – É um verdadeiro centro de pesquisa da flora amazônica, um jardim botânico em plena cidade, que traz exemplares da exuberante flora e fauna da região, como vitórias-régias, antas e capivaras. O parque zoobotânico abrange uma área de 5,2 hectares.

Theatro da Paz – Foi erguido em 1878 no auge do ciclo da borracha, inspirado no Teatro Scalla de Milão. Centenas de companhias internacionais se apresentaram em seu palco. Em 1882 o próprio maestro Carlos Gomes regeu “O Guarani” no local.

Mangal das Garças – O parque ecológico Mangal das Garças também é um pedaço da selva amazônica na região central de Belém. Reproduz as microregiões da fauna e flora paraense, com as matas de terra firme, as matas de várzea e os campos. Entre as várias atrações, o maior borboletário da América do Sul, um belíssimo orquidário, o Farol da Cidade (com 47 metros) e um viveiro com aves inacreditáveis.

Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves – Também é um exuberante pedaço da floresta amazônica no Centro da Cidade. No local há mais de duas mil árvores, orquidário e um viveiro de animais.

Complexo Feliz Luzitânia – Um dos ícones da recuperação dos espaços históricos de Belém é este complexo, que inclui o Forte do Presépio (onde ficam o Museu do Encontro e o Museu de Arte Contemporânea), o Museu de Arte Sacra (fica no interior da Igreja d Santo Alexandre, erguida pelos jesuítas), o Museu Histórico do Pará, a Catedral da Sé, o Teatro de Arte Sacra, a Casa das Onze Janelas, belíssima, local em que está situado o Boteco das Onze, onde dá para ouvir jazz, com ótimos petiscos e vista privilegiada para a baía.

Itacoraci – Neste bairro simples de Belém, com ruas de terra e alguns esgotos a céu aberto, o turista encontra tesouros que a cultura do estado mantém e produz: cerâmicas Marajoara, Tapajônica e Maracá, além de móveis em junco e apuí. Parte fundamental do passeio é ver o processo produtivo das peças.

Basílica Nossa Senhora de Nazaré foi erguida em 1852, no local em que teria sido encontrada a imagem da santa pelo caboclo Plácido. O templo atual começou a ser construído em 1909. A decoração completa da Igreja só foi finalizada na década de 1960. Tem o interior em mármore, com aplicações de lâminas de ouro e vitrais franceses. Tem o estilo da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Hangar – Belém possui o maior Centro de Convenções da Amazônia, o Hangar. Com uma área total de 63.000 metros quadrados e 24.000 de área construída totalmente integrada ao ambiente amazônico, é equipado com recursos de alta tecnologia e preparado para receber grandes eventos. Costuma receber shows durante o ano.

Espaço São José Liberto – Foi construído em 1749 pelos frades capuchos. Com a expulsão dos jesuítas, abrigou durante 200 anos olaria, quartel, depósito de pólvora, hospital, cadeia pública e presídio. Foi por mais de um século um lugar de privação da liberdade para presos comuns da justiça e presos políticos. No final dos anos 80, o prédio foi restaurado. Transformou-se, em 2002, no Espaço São José Liberto. No local funcionam o Museu de Gemas do Pará, o Polo Joalheiro e a Casa do Artesão, onde se produzem e comercializam joias. Um belo jardim o único jardim gemológico do país – está situado dentro do complexo, com uma fonte rodeada de três imensos quartzos. Com acervo de mais de quatro mil peças, o Museu de Gemas conduz o turista a uma viagem através da história gemológica do Pará.

Ilha de Mosqueiro – Pertinho de Belém, a ilha possui algumas das poucas praias de rio com ondas no mundo, que chegam a ter 1,5 m. É rica em pequenos rios e igarapés. Ao total na ilha são 21 praias. (A.G)

 

Meu dia no Mercado Ver-o-Peso

Falaram muito sobre o Ver-o-Peso. Mas o famoso mercado não é o que dizem. É muito mais! Cheguei, como recomendam, às 4h. O sono logo é vencido pelo burburinho do local. É fascinante ver os barcos atracando com seus produtos. É estupendo observar o mercado com frutas, verduras, peixes (mais de 30 espécies), artesanatos, ervas medicinais, essências, perfumes e temperos da região, tudo isso em meio ao ruidoso e animado som dos trabalhadores. Inesquecível acompanhar os raios de sol surgindo e tornando tudo ainda mais alegre e colorido.

Há muito para ver e provar. Existem, por exemplo, três tipos de açaí. Tem aquele que todos nós conhecemos, com cor entre o vinho e o roxo; o açaí branco e até um tal de babaca, que só é encontrado em algumas épocas do ano. Os paraenses costumam consumi-lo (a poupa do açaí) com farinha de mandioca e peixe frito. De café da manhã! Como a gente sempre tem a ilusão de conseguir ser por alguns momentos menos turista e mais um habitante da própria terra, faço o estranho desjejum e até que gosto. Decido provar de tudo, das variadas frutas e sucos aos quitutes que enfeitiçam os olhos e aguçam o paladar. Esqueço a dieta. Ver o peso na balança, só na volta das férias.

O homens procuram por Socorro!

O homens procuram por Socorro!

Ando mais um pouco e chego na parte em que predominam as bancas com ervas e essências ditas medicinais. Estou com mais jornalistas. A feirante olha para mim e diz: “venha comprar esse creme para passar na piroquinha”. Respondo: “você está querendo vender para mim ou me ofender?”. Ela ri e oferece uma gama de produtos: “com este Viagra Natural tu vais fazer três vezes seguidas”. Olho para a barraca e o nome da proprietária está estampado: “Socorro”. Dou um slogan de presente para a simpática paraense: “os homens pedem por Socorro no Ver-o-Peso”.

Dona Coló e seus brincos de arruda

Sigo caminhando, mas paro muito para conversar com o máximo possível de pessoas. Dona Coló exibe em sua banca jornais com entrevistas e fotos em companhia de famosos, como o apresentador Ratinho. Nas orelhas, folhas de arruda.  Ela entende da manipulação de produtos, arte aperfeiçoada nos cursos organizados por uma associação de donos de bancas do mercado. Desta vez o alvo é outra jornalista, que está ao meu lado: “Compre essa pomada para passar lá no seu. Garanto que sua mulher vai gostar…” (A.G)

 

ABC do sabor paraense

 

Café da manhã com açaí e peixe frito

Café da manhã com açaí e peixe frito

Açaí – O fruto da palmeira do açaizeiro o mais consumido pelos habitantes da região amazônica: em sucos, sorvetes e até acompanhando pratos. Os vendedores confessam que o cobiçado açaí com mel, granola e banana é feito sim, mas por causa dos turistas. “Bom é comer com peixe e farinha e não com essa mistura esquisita que o pessoal do Sul adora”, diz o simpático comerciante Raimundo Pereira.

Caruru – Outra das estrelas da gastronomia paraense. Leva camarões secos descascados e refogados com alho, cebola, cebolinha, pimenta do reino e azeite de dendê. Depois é engrossado com farinha seca coada e quiabo. Geralmente é acompanhado de guarnições de camarões secos e folhas de jambu.

Castanha-do-Pará – O nome não veio por acaso. O estado é o maior produtor e a população adora. É saborosa e nutritiva, consumida in natura ou em diversas receitas. Em mercados como Ver-o-Peso é vendida com qualidades e preços diversos. Mesmo a “Tipo Exportação” tem valores bem abaixo dos praticados na maioria dos estados brasileiros.

As famosas castanhas do pará

As famosas castanhas-do-Pará

Cupuaçu – É uma das frutas mais consumidas – utilizada nos mais diversos e saborosos produtos, como sorvete, licores, geleias, balas, cremes e chocolates.

Farinha d’água – É bem mais hidratada que as farinhas secas que encontramos em todo o país, já que é feita da mandioca que fica de molho no rio. É ingrediente obrigatório nas mesas da região. Do café da manhã até sobremesas do jantar…

Feijão-manteiguinha de Santarém – É pequenino, com menos que a metade do tamanho dos feijões usualmente consumidos nas outras regiões do país. É bege e, claro, cultivado em Santarém, cidade na região Oeste do estado. Entender a origem do nome é fácil. Basta colocá-lo na boca depois de cozido: derrete como uma manteiguinha…

Filhote – O nome do peixe é esquisito, mas qualquer estranhamento é esquecido à primeira garfada. É o maior peixe da água doce do país. Não é “história de pescador”: chega a pesar 300 kg. Até os 60 kg, o nome é filhote. Depois, passa a ser chamado de Piraíba. O sabor é incrível, preparado das mais diversas formas, como em Moqueca, ao Tucupi ou mesmo assado na brasa.

Jambu – Junto com o tucupi forma a base da maioria dos saborosos pratos do Pará. Quando mastigadas, suas folhas deixam a boca e a língua dormentes. É ingrediente cada vez mais usado pelos chefs de cozinha.

Maniçoba – A explicação dos paraenses para o nome do prato é a seguinte: uma feijoada que não leva feijão! Para fazer o prato, as folhas de maniva (planta que produz a mandioca) são moídas e, a seguir, cozidas durante uma semana. Nos quatro primeiros dias acrescenta-se apenas água. Depois entram lombo defumado, paio, linguiça, orelha e rabo de porco, costela, bucho e charque.

Muruci – Também conhecida como Murici, mas ao contrário do treinador, conhecido por seu temperamento, digamos… um tanto azedo, é uma fruta de doce sabor. A frutinha amarela é boa para sorvetes, doces e sucos.

Pato no Tucupi – É a iguaria mais pedida pelos turistas nos restaurantes de Belém. O pato assado é cortado em pedaços e fervido vagarosamente no tucupi até ficar macio. O tempero tem uma mistura das folhas de chicória (tempero verde, típico da região) com alho, alfavaca, pimenta cumari-do-pará e jambu. Imperdível.

Pirarucu – É o maioral entre os peixes com escamas no País. Chega a medir mais de 2,5 metros e a pesar 80 quilos. Tem diversas maneiras de preparo, como assado na chapa e servido com farinha d’água e salada de feijão-manteiguinha de Santarém. Salgado, muitas vezes substitui o bacalhau.

Tacacá – Servido fervente e em tigela (cuia), combina com sabor e harmonia perfeita goma de mandioca, tucupi, jambu e camarões secos, tudo misturado na hora. Embora não tenha álcool, muita gente garante ficar até um pouco “alta” após provar o Tacacá…

Tucupi – Extraído da raiz da mandioca, o tucupi é um molho amarelado que dá um sabor único aos pratos. É possível ver nos mais diversos mercados, geralmente em garrafas plásticas. Antes de ser consumido, deve ser cozido demoradamente, já que cru é venenoso. É utilizado com abundância em muitos pratos da cozinha paraense. Tanto que uma expressão local diz: “até mesmo pedra fica bom com tucupi”. (A.G)

 

 

 

 

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