por Airton Gontow

Há uma cena emblemática em “O ano em que meus pais saíram de férias”, excelente filme de Cao Hamburger sobre a Ditadura Militar, que tem como pano de fundo a Copa do Mundo de 1970. Jovens da esquerda brasileira assistem a um dos jogos da Seleção cientes de que o certo é torcer para a derrota do Brasil, já que o triunfo do time nacional seria mais uma arma nas mãos do governo militar. Mas na hora do primeiro gol do Brasil o que se vê é uma explosão de alegria.

Vivi uma cena, de certa forma semelhante, muitos anos antes, na Copa do Mundo de 86. Eu estava na Universidade de Tel Aviv, em Israel, onde estudava, assistindo à partida decisiva entre Argentina e Alemanha. Ao meu lado, estudantes judeus latino-americanos, metade deles da Argentina e os outros de países como México, Colômbia, Uruguai e Brasil. Todos manifestaram apoio irrestrito ao “herrmano sul-americano”, ainda mais contra a Alemanha, time que, por motivos óbvios, não encontra muitos seguidores em Israel.

 

Valdano chuta para marcar o segundo gol da Argentina

Quando a Argentina fez o primeiro gol, nossos vizinhos vibraram intensamente e todos nós aplaudimos. Na hora do segundo gol, a vibração foi ainda mais forte e até nos arriscamos a cantar “Vamo, Vamo, Argentina…” Quando os alemães marcaram pela primeira vez houve um silêncio absoluto no quarto. O jogo prosseguiu, com todos nós ansiosos pelo seu término. Na hora do empate da Alemanha o que se viu e ouviu foram gritos ensurdecedores: “Gol! Gol! Gol!” De repente lá estavam todos os jovens estudantes – judeus e sul-americanos! – festejando em pé o gol dos alemães, sob os olhares surpresos dos argentinos que, aliás, saíram do quarto vibrando e sem nos olhar ou se despedir quando sua seleção conquistou o título.
Já contei essa história em uma crônica antig e recentemente, aqui no “Na Copa com Airton Gontow”, para falar sobre as opiniões de que seria bom para o País que a Seleção Brasileira fosse eliminada já na primeira fase. Eu e você, explicavam os “conscientezinhos”, deveríamos torcer contra a Seleção Brasileira, já que a vitória na Copa poderá significar a perpetuação de tudo o que está errado no País

Volto à mesma história porque hoje as duas seleções são novamente protagonistas – pela terceira vez! – de uma final de Copa do Mundo.
Eu teria mil motivos para torcer hoje pelos nossos hermanos.
Mas o coração simplesmente não deixa!
Não há espaço para a razão na hora do futebol!

Como disse o matemático, físico e filósofo francês Blaise Pascal, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”!

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